Hi Fi: a melhor balada dos anos 80 e 90

Tárcio Zemel

Nos Anos 80, época em que as famosas danceterias funcionavam a todo vapor, cedendo lugar a roupas coloridas, blazers 2 números acima, mullets e ombreiras, a efervescência cultural juvenil estava em seu auge. A comunidade pré-adolescente também não queria ficar de fora das festividades e, para os púberes de plantão, a solução era frequentar a melhor balada dos anos 80 e 90: a festa Hi Fi!

A festa Hi Fi (ou “Festa Americana“, em alguns rincões) vinha em 2 modalidades: as realizadas em casas de shows profissionais e as amadoras, feitas nas casas da molecada. Continuemos os relatos dos fatos com enfoque à segunda.

Regras do Hi Fi

Tal como qualquer festividade grupal humana, o Hi Fi também possuía suas regras de conduta e etiqueta. Você ainda se lembra quais são?

Cronograma e musicalidade

Nos Hi Fis feitos nos bairros, era montado com antecedência um complexo e intrincado modelo de rodízio para estabelecer o circuito de Hi Fi do mês, no qual se fazia o cronograma das casas que acomodariam as festas vindouras — em que a festa era geralmente realizada numa sexta ou sábado.

Mesmo os que não possuíam muitas condições ou suas residências (em teoria) não comportavam a festa dos efebos, tudo se resolvia pela regra de ouro do Hi Fi:

Meninas levam salgado; meninos levam refrigerante.

Independente do que fosse acontecer no Hi Fi, certamente não havia carência de coxinhas, quibes, risole de carne e bolinha de milho regados a muita Coca-Cola, Fanta Laranja e Guaraná.

Para os hi fis mais abastados, a festa tinha direito a DJ, música ao vivo e telão com videoclipes da época, não faltando hits de Michael Jackson, Madonna, David Bowie, Soft Cell, The Clash e outros internacionais diretamente dos vinis importados e/ou fitas K7.

Aparelho de som tocando vinil

Era uma grande honra fazer as vezes de DJ nos Hi Fi.

A colaboração imberbe não faltava também nessa hora, em gesto solidário no qual os mais antenados às músicas famosas da época se ofereciam para levar os vinis/K7s às festividades no caso de o anfitrião da vez não possuir as cantilenas em seu portfolio pessoal.

“É namoro ou amizade?”

Para os que assistiam ao saudoso programa Em Nome do Amor, de Sílvio Santos, todos esperavam pela icônica pergunta: “É namoro ou amizade?”. Mas o que a maioria não sabe é que o Departamento de Criação do SBT não teve dificuldades em bolar a coisa toda, já que tudo não passou de uma forte inspiração do mundo real: era exatamente isso o que acontecia nos Hi Fi.

Dentre a seleta lista de músicas elaborada em conjunto — com um “toque especial” e preferência de quem cedia a casa para o Hi Fi –, evidentemente constavam hits de músicas lentas.

E de um momento para outro, quando uma música lenta começava a tocar, rapidamente o suadouro da pulação na sala se convertia em 2 grupos distintos no ambiente. Em paredes contrapostas, conglomerados de adolescentes de sexos opostos fixavam suas costas nas paredes, no ritual  que todos os presentes conheciam e estavam ansiosos por começar: era chegado o momento da escolha do par para dançar a música lenta agarradinhos!

Dançando música lenta no Hi Fi

A música lenta começava; o ambiente era ajustado à meia-luz; as reais intenções da presença na festa se revelavam…

Quando o dimmer da luz era colocado no mínimo e o aparelho de som Gradiente exaltava poucas batidas por minuto, o real propósito da aglomeração do (assim chamado) “povo da acne” se cumpria: dançar agarradinho com aquela pessoa que já se estava “de olho” há muito tempo.

Na escola ou nas brincadeiras de rua, sempre tinha aquela pessoa da preferência, aquela que estava nos sonhos e devaneios hifinianos mais profundos, em que só se aguardava a noite certa para a dança a dois.

Aqueles breves momentos de costas coladas na parede eram justamente para os olhares e sorrisos da seleção se revelarem, para a efervescência de hormônios contidos darem lugar a uma largada tácita rumo ao objetivo da dança e — por que não? — a um possível ponto alto na noite: um beijo na paquera!

“Paquera” é o nome da época para o vulgar “crush” de hoje em dia.

À adrenalina do momento, em si, somavam-se alguns miligramas à tensão de algum adulto aparecer justamente no esperado momento da noite. Afinal, todos sabiam que os pais do anfitrião da vez não deixariam uma horda adolescente com excesso hormonal à vontade em sua residência.

Registros históricos do Hi Fi

Para os mais jovens não pensarem que tudo isso não passou de uma alucinação coletiva dos habitantes dos Anos 80 e 90, seguem alguns registros históricos do Hi Fi.

O Hi Fi jamais será esquecido pelos conterrâneos da era pré-2000. Toda uma semana de estudos na escola e deveres de casa enfadonhos eram recompensados por aquela baladinha juvenil, em que muitos já esperavam dar o bote na paquera; outros iam para tentar a sorte no modo aleatório e; alguns compareciam, bem, para encher a pança.

Independente de qual era o seu motivo, tenho certeza de que você não pode negar: ahh, que saudade do Hi Fi!

Author:
Cria do interior de MG dos anos 80, desde sempre é interessado por videogames, desenhos animados, personagens, curiosidades e quase tudo do que hoje é conhecido como "Cultura Nerd/Geek". Já foi o melhor jogador de "Castlevania: Symphony of the Night" do Brasil.