Phantom System: o famiclone que deixou saudade

Tárcio Zemel

Muitos dos auto-denominados “gamers” de hoje em dia já começaram suas vidas de jogatina num PlayStation 2 ou Xbox… Ahh, os centennials! Eles somente têm uma vaga idéia do que foram os consoles que nós, o pessoal “daquela época”, jogávamos; de como era jogar praticamente uma imagem feita no Paint Brush e, ainda assim, estar diante dos até então melhores gráficos de jogos eletrônicos que se poderia imaginar. Para os rapazolas que já pegaram em uma manete olhando gráficos de 128bit,  criados a “leite com pera e ovomaltino”, conheçam esta a história, a história de um console nacional que mostrou como se copia direito: o Phantom System.

Clones de NES ou “famiclones”

Um dos mais icônicos e históricos consoles de todos os tempos foi o NES (mais conhecido em terras tupiniquins como “Nintendinho“). Alguns não conhecem a história, mas naqueles idos de 1983 ele primeiro foi lançado no Japão com o nome de Nintendo Family Computer, ou apenas Famicom, tendo incorporado seu nome “NES” somente 2 anos depois, quando zarpou da Terra do Sol Nascente para a América — o Tio Sam iria gostar mais de “NES”, sabem como é essa coisa de marketing…

Neste ponto, temos que falar de um período conturbado que aconteceu no Brasil nos anos 80: a reserva de mercado. Como é possível consultar na infame Wikipédia,

Em 1984, a primeira lei sobre Informática no Brasil, a Lei Federal nº 7.232/84, estabeleceu a reserva de mercado para este ramo de atividade, com o objetivo de induzir o investimento do Governo e Setor Privado na formação e especialização de recursos humanos voltados à transferência e absorção de tecnologia em montagem microeletrônica, arquiteturas de hardware, desenvolvimento de software básico e de suporte, entre outros.

Embora não se possa negar a realização de grandes investimentos internos, a Política Nacional de Informática então em vigor acabou por engessar o desenvolvimento econômico do país e chegou a favorecer a pirataria de hardware e software, com o surgimento de diversas empresas nacionais que oficialmente fabricavam equipamentos ou desenvolviam sistemas copiados de projetos estrangeiros, principalmente de origem norte-americana

Trocando em miúdos, a reserva de mercado nada mais é do que uma regulamentação do Estado para barrar determinados tipos de importações sob a alegação de uma (pretensa) proteção da indústria nacional.

Fato é que, em função da tal reserva de mercado dos anos 80, nosso amigo NES jamais foi oficialmente lançado no Brasil até 1994. Nessa altura do campeonato, o mercado de videogames iria ficar parado? A miríade de crianças ensandecidas ficaria esperando? Claro que não. This is Brazil!

Capitão Nascimento ensinando ao mercado nacional o que deve ser feito.

“Tá sem importação, amigo? Altura dessa do campeonato, tá sem importação? Quer dizer, concorrente seu encomenda por fora um contêiner cheio de videogame e você vai fazer o quê?!”

O jeitinho brasileiro falou mais alto e começaram a surgir no mercado inúmeros clones do NES, os famiclones “Famicom”, “clone”, enfim, você entendeu. E no ano de 1989, lançado pela Gradiente (atual IGB Eletrônica), dentre as “alternativas” oferecidas, lá estava ele, o xodó nacional de 8bit da infanto-juventude dos anos 80; o paladino negro do entretenimento de massas: Phantom System!

Reza a lenda que a então Gradiente,  detentora da marca “Atari” no Brasil, estava pronta para fechar um acordo de distribuição do novo Atari 7800. Depois de uma demonstração bem-sucedida do novo produto, acordou-se que, dali a 2 meses, os executivos da Gradiente rumariam à Nova Iorque para a assinatura formal do contrato.

Chegando lá, passeando pelas ruas da famosa cidade no fim de semana que antecederia a assinatura e consolidação do negócio, observaram várias lojas cheias de crianças jogando e comprando consoles e jogos… Da Nintendo!

Os engravatados perceberam a tendência do mercado e chegaram à conclusão de que não valeria a pena assinar com a Atari, no que ficaria conhecida como uma das maiores amareladas de negócios do mundo dos games.

Phantom System, o mais popular clone de NES do Brasil

Do tempo da apresentação do Atari 7800 até o fatídico fim de semana em New York, a Gradiente já havia começado a produção das carcaças dos consoles e, como os executivos da Atari não conseguiram convencer de que realmente valeria a pena concluir o negócio, lá estavam milhares de carcaças vazias de Atari mofando nos depósitos…

E, como o pessoal de business bem sabe, “estoque parado é dinheiro parado”.

Sua majestado, o Phantom System.

Sua majestade, o Phantom System.

O pessoal da Gradiente deu um jeito de pegar alguns exemplares do NES no estrangeiro para… Digamos… Se inspirar.

Depois de estudar e compreender mais sobre a coisa toda, o resto é história: preencheram aquelas carcaças paradas de Atari com o novo hardware e começaram a traçar as perspectivas e estratégias para abarrotar o mercado nacional com essa novidade gameológica, aguçando os desejos mais primitivos dos consumidores por tecnologia de ponta em entretenimento.

Infelizmente, não houve salvação para as manetes já produzidas. O modelo “manche” do Atari 7800 não era possível de ser reaproveitado em consoles modernos, tanto pelo fato de ter somente alguns poucos botões, quanto por ter aparência já considerada defasada. Mas o Phantom System precisava de uma manete. É impossível jogar videogame sem manete!

Comparativo entre as manetes do Mega Drive e Phantom System.

Comparativo entre as manetes do Mega Drive e Phantom System.
(eu sei que o nome é “joystick”, mas eu acho muito feio e vou continuar chamando de “manete”)

Então o pessoal da Gradiente deu um jeito de pegar alguns exemplares de um console que estava prestes a ser lançado no Japão (um tal Mega Drive), para… Digamos… Se inspirar.

E dessa vez se inspirou mesmo, fazendo do controle do Phantom uma das cópias mais fiéis de um hardware da concorrência já vistos!

O conjunto estava quase completo, com carcaça, recheio da carcaça e manete; só faltava uma coisa: os jogos. Mas o brasileiro quando copia, copia direito. Na verdade, não foi preciso nenhuma preocupação com a produção de jogos, já que os famiclones podiam rodar jogos do NES original!

Isso mesmo: fosse qual fosse o jogo de NES que a criançada quisesse jogar no Phantom, não haveria problema e/ou contratempos além de o bolso dos pais ficar mais leve. A compatibilidade era total e absoluta e, somente em alguns raros casos, alguma diferença de performance e/ou incompatibilidade total acontecia.

Os melhores jogos do Phantom System

Então, não fazia muito sentido falar em “jogos de NES” e “jogos de Phantom System”, já que o clone conseguia rodar os jogos do primigênio. E os principais jogos de NES/Phantom, considerados como os melhores pelo IDSDM, eram:

  • Super Mario Bros. (1, 2 e 3)
  • The Legend of Zelda
  • Mega Man 4
  • Metroid
  • Battletoads
  • Final Fantasy III
  • Tartarugas Ninja 2
  • Castlevania 3
  • Double Dragon 2
  • Ninja Gaiden II

Também ficam menções honrosas para Ghostbusters (Os Caça-Fantasmas), que por muito tempo veio com o Phantom e se tornou um clássico, e Super Pitfall, que eu tinha e jogava bastante — bastante mesmo! Além da diversão com o jogo, em si, também era divertido ver a expressão das pessoas ante a revelação de que uma criança considerada normal podia passar 10 horas do seu dia em frente à TV escutando essa musiquinha aqui:

Phantom System deixou saudade

E é com esse saudosismo de 8bit que chegamos ao fim da saga de um dos mais queridos clones nacionais (fora o da novela).

Da época que criança tomava um quase vermute antes do almoço; que acertar passarinho com estilingue era passa-tempo; que cachorro tomava banho gelado; fica a lembrança daquele que foi o precursor dos famiclones no Brasil e abriu as portas da diversão para milhares de crianças (e deu sossego para milhares de pais): para sempre em nossas mentes e em nossos corações, o Phantom System.

Author:
Cria do interior de MG dos anos 80, desde sempre é interessado por videogames, desenhos animados, personagens, curiosidades e quase tudo do que hoje é conhecido como "Cultura Nerd/Geek". Já foi o melhor jogador de "Castlevania: Symphony of the Night" do Brasil.